O Mito de Eros e Psiquê

Escrevi esse artigo/conto para Gilce Oliveira, motivado por nosso interesse comum pelos temas do Amor e Alma.

Entre as belas histórias que acontecem de verdade no mundo dos sonhos, das lendas e do cotidiano está a o mito de Eros (Ἔρως) e Psiquê (Ψυχή).

Os Personagens

No português podemos escrever e falar Psique ou Psiquê. Vou preferir a segunda forma porque é a mais tradicional e, segundo os estudiosos da língua, uma representação mais próxima do grego Ψυχή (Psychḗ). Essa forma tem sido escolhida no contexto da mitologia, literatura clássica, filosofia e psicologia, que deriva dela seu própria nome: psiquê é a nossa alma ou mente, nossa subjetividade.

Eros ou Amor

Eros, mais tarde chamado de Cupido pelos romanos e depois Amor pelos descendentes latinos, é um ser de origem e natureza ambígua. No Olimpo ele é filho de Afrodite, Deusa do Amor, da beleza e do prazer. Assim ele era retratado na poesia e nos contos homéricos. O relato sobre quem era seu pai varia com a tradição e fonte: Ares, o Deus da Guerra, consta da maioria das narrativas. O casal, nesse caso, simboliza a união do Amor e da Guerra onde há, portanto, conflito. Outras versões apontam Hermes, o mensageiro dos deuses, como o pai, ou ainda Zeus, o rei dos Deuses. Também Urano, o Céu, um Deus primordial, foi descrito como seu pai. É possível, no entanto, que nem todas as versões façam referência ao mesmo Amor.

Eros, Cupido, Amor

Uma narrativa muito mais antiga, vetusta e venerável, aponta Eros como um ser misterioso e sem pai nem mãe, algo que estava presente antes mesmo que o Universo tenha sido formado. Na Teogonia de Hesíodo, século VIII a.C., Ele é uma força primordial que existia junto do Caos, depois Urano, o Céu, e Gaia, a Terra.

“No princípio, surgiu Caos;
depois, Gaia de amplo seio, a eterna base de tudo, e Tártaro teneboso nos recantos mais profundos do chão;
e Eros, o mais belo entre os deuses imortais, que solta os membros e domina o espírito e a vontade sábia de todos os deuses e de todos os homens.
Do Caos, nasceram Érebo e a negra Noite.
Da Noite, por sua vez, nasceram o Éter e o Dia.

Adaptado de Hesíodo, A Teogonia

Gaia, a Terra, é a “Base Feminina de Tudo”, não composta por montanhas ou vales, mas como um “seio amplo”, o fundamento a base para a vida e a “eterna base dos seres”. Ela existe junto com o masculino Urano, a “Cobertura” que tem como propósito “cobrir Gaia por toda a parte”. Ele também não é um céu de nuvens ou astros, mas simplesmente a abóbada celeste primordial. Juntos eles formam o primeiro casal, o Céu cobrindo a Terra motivado pelo amor de Eros. Eles interagem e geram os grandes Deuses Primordiais que, por sua vez, geram todas as coisas que populam o mundo hoje.

Antes que qualquer forma exista, o Chão (Gaia) e o Teto (Urano) interagem para gerar filhos, os Titãs e os Ciclopes, principalmente depois da sepação violenta dos pais causada por Cronos, o Tempo. A separação de Urano e Gaia libera o espaço entre eles para os seres e a vida. Cronos castra o Pai causando o espaço, Éter, onde o mundo foi formado e organizado. O Cosmos é a Ordem que desafia a inexistência e o Abismo.

Indepente da relação obscura, talvez pouco racionalizável, entre Eros primordial e aquele que se apaixona por Psiquê na tradição clássica, Eros, Cupido ou Amor é muito mais próximo dos humanos, sendo capaz de se apaixonar e ser amado por um deles. Esse mesmo Eros possui arco e flechas de ouro com poder mágico, que podem despertar amor irresistível, e flechas de chumbo, que geram antipatia e aversão. Ele representa a parte Amor da Alma humana, romantismo, paixão e desejo em todos os sentidos.

Mutilação de Urano por Cronos. Giorgio Vasari e Cristofano Gherardi, c. 1560.

Psiquê

Psiquê

Psiquê era, inicialmente, uma princesa humana de extraordinária beleza. Ela foi representada na arte dos mosaicos antigos como uma mulher com asas de borboleta, na companhia de seu marido Eros. Em algumas formas de arte, duas mulheres deusas aparecem, a segunda provavelmente descrevendo a filha do casal, Hedonê.

O poema mais famoso envolvendo Eros e Psiquê foi contado por Apuleio, um escritor romano, já em narrativa secundária das velhas tradições gregas, em seu livro Metamorfose ou O Asno Dourado. Psiquê era uma mulher mortal de extrema beleza, que se tornou imortal em sua interação com Eros. O nome Ψυχή (Psychḗ) significa “alma”, “fôlego vital” ou “borboleta”, interpretada como símbolo da leveza, do fluxo e da metamorfose da alma.

Com toda a sua beleza Psiquê não recebeu nenhuma proposta de casamento dos homens de sua cidade. Preocupado, seu pai foi a Mileto para se aconselhar com o oráculo de Apolo. O oráculo respondeu que o marido de Psiquê:

“não é um ser de semente humana,
Mas uma serpente terrível e feroz como se possa imaginar,
Que voa com asas nos céus estrelados
E subjuga tudo com seu voo flamejante”.

Para encontrar esse espírito maligno – temido pelos próprios deuses – Psiquê deveria ser vestida com suas roupas de luto e deixada sozinha no topo de uma montanha rochosa, de onde seu futuro marido viria buscá-la.

Nas encostas do monte Parnaso está o Oráculo de Delfos, dentro do templo de Apolo, uma instituição poderosa do mundo grego antigo.

Afrodite

Afrodite (Ἀφροδίτη) é a deusa grega do Amor, Beleza, Prazer, Fertilidade e Atração. Uma das doze divindades do Olimpo, ela incorpora poder, sedução, ciúme e até violência, algo que está muito além de apenas a “deusa do amor romântico”.

O Nascimento de Venus, Sandro Botticelli, provavelmente da década de 1480.

Sua origem é descrita em duas versões que revelam aspectos distintos de sua natureza. Segundo a Teogonia de Hesíodo (século VIII a.C.) a Deusa nasceu da espuma do mar (aphros em grego) produzida pelo sémen de Urano (Céu) quando sua genitália foi cortados por Cronos e caiu no mar perto de Chipre. Nessa relato a Deusa nasceu sem a presença de uma mãe, mas fruto de uma guerra ou revolução nos céus, que alterou a ordem cósmica fazendo surgir o universo e iniciando sua evolução.

Na Ilíada de Homero (século VIII a.C.) outra versão é apresentada onde Afrodite é filha de Zeus e da Titan Dione. Isso a coloca mais próxima da família dos Deuses Olímpicos, e seu papel é melhor definido como o de Deusa do amor e da beleza. Ela domina a natureza do amor físico e emocional humano, da beleza, paixão, procriação e atração entre os seres. Ela aparece no relato mítico acompanhada pelas Cárites (Graças), Eros (amor), Pothos (desejo) e Himeros (anseio). Seu culto floresceu em templos em Chipre e Corinto, entre outros.

Ainda que linda e amorosa, Afrodite era podia ser vingativa, ciumenta e cruel com quem a desprezava ou rivalizava com sua beleza, como aconteceu com Psiquê. A memória conta que ela competiu com Hera e Atena pela maçã de ouro destinada à mais bela, tendo sido escolhida por Páris, o príncipe troiano, sob a promessa de que concederia a ele o amor de Helena, a mulher humana mais bela. Por meio de sua intervenção, Páris raptou Helena e provocou a Guerra de Tróia.

A beleza de Afrodite e seu comportamento ambíguo, como amorosa e vingativa, ou punitiva, é uma referência ao poder do amor, personificação da atração que move o universo, capaz de gerar vida e discórdia. Sua ambiguidade lembra o prazer do amor e a dor da separação, do ciúme e da destruição.

O Mito

Eros e Psiquê

Nos tempos dos Aedos, os poetas sábios, professores e detentores da memória da tradição, uma história maravilhosa e significativa foi contada. Diziam eles que Afrodite foi tomada de ira ao saber que muitos humanos negligenciavam o culto a Deusa da beleza para reverenciar uma mulher humana chamada Psiquê.

Sua beleza deslumbrante levava os homens a se esquecerem dos altares de Afrodite. Essa beleza pura e tranquila foi, mesmo assim, uma dádiva perigosa. Psiquê era curiosa, corajosa, perseverante e de coração puro, mas ingênua a ponto de ser submetida e se conformar com a inveja daqueles que não souberam apreciar a sua sorte.

Percebendo a adoração de homens por uma humana, Afrodite decidiu enviar seu filho Eros para fazer com que Psiquê se apaixonasse por um monstro. “A criatura mais horrível que você puder encontrar, um ser vil e miserável”, ela determinou. Eros partiu em sua missão mas, ao encontrar Psiquê caiu, ele mesmo, em amor e admiração por ela. E o amor, como se sabe, fragiliza os músculos e perturba o ritmo da respiração, fazendo com que Eros ferisse a si mesmo com sua flecha dourada.

Apaixonado, ele a levou, com a ajuda de Zéfiro, o Deus do Vento do Oeste, para um palácio mágico e invisível onde todas as coisas estavam arranjadas com luxo e refinamento. Escondendo sua verdadeira natureza de um Deus, ele a visitava somente sob a escuridão da noite e proibiu expressamente que ela tentasse vê-lo ou descobrir sua identidade. Se ela descobrisse o seu segredo, ele ameaçou, ela seria abandonada. Psiquê aceitou a imposição, mas viveu com a crescente curiosidade e dúvida. Noite após noite, Psiquê viveu em êxtase, sentindo-se amada porém sem nunca ter visto o rosto do companheiro.

Psiquê Revivida Pelo Beijo do Cupido, do artista italiano Antonio Canova, 1787.

Mas a vida na terra, mesmo para pessoas que vivem em castelos fantásticos, jamais é perfeita. Psiquê tinha duas irmãs mais velhas, princesas casadas com reis estrangeiros mas de personalidade turva e invejosa. As irmãs ficaram furiosas e humilhadas quando perceberam que a irmã mais nova havia recebido um presente do destino. Elas visitaram a irmã no palácio mágico e conspiraram para destruir seu casamento. Para esse fim, convenceram Psiquê de que seu amante invisível era, na verdade, um monstro horrível que um dia a devoraria caso ela não descobrisse em tempo a sua identidade. Então ela criarem um plano: Psiquê deveria esconder uma lâmpada e uma faca para ver a face do monstro e matar a fera durante a noite.

Psiquê preparou uma lâmpada a óleo e a faca afiada, com a qual pretendia matar o “monstro”. Após um de seus encontros amorosos, Eros adormeceu e Psiquê se aproximou dele com a lâmpada acesa. Ela descobriu que nenhum monstro estava presente e sim o mais belo dos Deuses, Eros, com suas asas douradas, cabelos cabelos longos e seu corpo jovem e perfeito. Extasiada, e tomada pela admiração e encantamento, ela se inclinou para dar um beijo em seu amado, deixando que uma gota de óleo quente da lâmpada caisse no ombro de Eros.

Eros e Psiquê, mármore, 300 bc.

Eros acordou com o calor do óleo. Magoado e se sentindo traído, ele viu Psiquê debruçada sobre ele dizendo as palavras dolorosas: “Ingrata Psiquê! Desobedeci a minha mãe para poder te amar… não esperava ser tratado como monstro. Agora a confiança está rompida!”. Inutilmente Psiquê tentou se agarrar ao Deus, segurando suas pernas, mas Eros saiu voando pela janela. Nesse mesmo momento o palácio mágico desapareceu e Psiquê acordou sozinha em um campo vazio, cheia de tristeza e remorso.

Sendo bem sucedidas na destruição da felicidade de Psiquê, suas irmãs tentaram ocupar o seu lugar. Uma por uma elas se dirigiram ao penhasco de onde Psiquê foi levada por Zéfiro. Elas pularam sobre o vazio e gritaram um pedido para que o vento as levassem até Eros, mas Zéfiro não as acolhem e ambas cairam e morreram no despenhadeiro.

Psiquê reagiu de modo extremo ao abandono por Eros, se jogando em um rio na tentativa de morrer afogada. Mas o próprio rio, animado por alguma divindade não revelada, rejeitou seu ato, atirando a jovem de volta à margem. Em sofrimento, ela iniciou o processo de busca e recuperação de seu amado. Percebendo que nem a morte a aceitaria, ela iniciou a busca por Eros em todas as partes da Terra. Por onde andou ela perguntou sobre o deus do amor, sem obter nenhuma resposta, enquanto Eros estava abrigado no palácio de Afrodite.

Psiquê decidiu então tentar um gesto de paz com a própria Afrodite, sua sogra poderosa e irada. No templo, ela se ofereceu como serva, mas a Deusa ainda sentia ódio, ridicularizando a mulher através da submissão de provas que ela mesmo considerava impossíveis de completar. “Depois você poderá ver Eros, o seu Deus.”

Afrodite impôs quatro tarefas. Primeiro ela deveria separar, em uma única noite, uma montanha de grãos misturados, composta de onde pilhas enormes de trigo, cevada, painço, papoula, grão-de-bico e lentilhas. Psiquê se sentou diante da montanha de grãos, triste e paralisada pela dificuldade em realizar a tarefa proposta. Desta vez um exército de formigas se compadeceu da dor da mulher, separando todos os grãos por tipo, em pilhas organizadas. Ao final do dia, Afrodite retornou furiosa e percebeu a ajuda sobrenatural recebida, mesmo que não tenha vindo diretamente de um Deus.

História de Psiquê (Desalento) Giulio Romano, 1526.

Enfurecida, ela ordenou a realização de outra tarefa: Psiquê deveria coletar lã dourada de um rebanho de ovelhas ferozes. Os caniços da região iniciaram um sussuro, obrigando as ovelhas a passarem por um campo de plantas espinhosas, onde sua lã foi arrancada e pode ser coletada mais tarde.

A tarefa seguinte exigia a coleta de água do rio Estige, que jorrava de uma montanha inacessível e era guardada por seres perigosos. A ajuda dessa vez veio de Zeus que ordenou a sua águia o recolhimento da água.

A quarta e última tarefa exigia que Psiquê descesse ao Submundo, o Hades, para buscar em uma caixinha um pouco da beleza de Perséfone. A jovem soube que a descida ao submundo terminaria com a sua morte. Desesperada, ela se dirigiu até uma torre de onde pretendia se atirar, mas ouviu uma voz partindo da própria torre:

  • — Leve duas moedas para pagar Caronte, o barqueiro.
  • — Leve dois bolos de cevada e mel para distrair o cão de três cabeças, Cérbero.
  • — Em nenhuma hipótese pare no caminho para ajudar almas suplicantes, não importa a dor continda em suas lamúrias.
  • — Após receber a caixa de Perséfone, não a abra em nenhuma circunstância.
Psiquê abre a caixa dourada, 1903.

Psiquê seguiu as instruções e conseguiu a caixa. Mas, dominada pela curiosida, ela a abriu na tentativa de obter para si mesma parte da beleza da Deusa. De dentro da caixa saiu um vapor contendo um sono infernal que a fez desmaiar como morta.

Tendo, nesse ponto, superado sua dor e desapontamento, Eros percebeu o situação de penúria por que passava a sua amada. Ele então resolveu interceder, voando até ela e removendo o sono provocado pelo vapor. Depois pediu a intervenção de Zeus, que aceitou a união do casal apaixonado. Zeus ofereceu ambrosia a Psiquê, o que fez dela uma Deusa. Ciente do valor demonstrado, da pureza e coragem, a própria Afrodite acolheu o casal. Do relacionamento de Eros e Psiquê nasceu a filha Hēdonē, a Volúpia ou Prazer.

O que significa essa história?

O mito grego representa os primórdios e base do pensamento racional (do ocidente) moderno. O mito tem origem muito antiga, era recontado pelas aedos (poetas), sem uma representação fixa pela palavra escrita, então inexistente. Ele era fluido, apesar da obrigação do poeta de ser fiel na sua narrativa. O mito foi questionado e transformado em teatro, que o reproduz de forma artística, questionadora e repleto de indagações. Por sua vez o teatro abriu o terreno para a mente que busca respostas, florescendo como filosofia.

Muitas interpretações foram dadas para o mito de Eros e Psiquê. Em particular a leitura de que Psiquê é uma alegoria para a alma humana, enquanto Eros é Desejo e o Amor. O casal pode, nesse caso, simbolizar a integração entre a alma humana e o amor divino, a força com potência suficiente para elevar a alma através de provações, até o atingimento da transcendência.

A jornada de Psiquê indica o amadurecimento da alma. Ela parte da mais pura inocência, acompanhada da quebra de confiança e sofrimento correspondente. A alma, no entanto, por sua força própria e ajuda dos seres, consegue se reerguer e se estabilizar. Psiquê é fraca e falível, mas persevera. No caminho ela tropeça na inveja humana e divina mas consegue superar todos os obstáculos.

 

A proibição de ver Eros tem sido lida, por alguns pensadores, como a afirmação de que nem tudo pode, pelo menos no momento, ser compreendido na plenitude pela razão humana. O Amor, no entanto, pode ir além de razão e transcender regras e hierarquias. A filha, Hedonê, sugere que prazer verdadeiro pode nascer da união entre a alma e amor.

Uma ironia marca a relação entre a humana e o Deus. Psiquê não pretendia machucar Eros, mas sim vê-lo por amor, curiosidade e por medo, instigado pelas irmãs. Sua tentativa não é maliciosa mas é fraca, mostrando sua natureza humana imperfeita. A gota de óleo fere o deus, porque a desconfiança é o maior ataque ao amor.

Filosoficamente, as escolas do Platonismo e derivadas fizeram a leitura de que o conto narra o desejo da alma de voltar para o ambiente divino de onde teria surgido. A viagem ao Hades significa que a alma está presa ao mundo material e que precisa superar suas ilusões e ignorância para retornar ao estado livre, voando entre os signos do zodíaco.

Bibliografia

Psiquê Abandonada, Pietro Tenerani, 1816.
  • Cornford, Francis, M.: From Religion to Philosophy: A Study in the Origins of Western Speculation, 1912.
  • Homero de Quio (?): A Ilíada, século 8 a.c. (possivelmente).
  • Homerode Quio (?): Odisséia.
  • Hesíodo de Ascra (?): A Teogonia, século 7-8 a.c. (possivelmente).
  • Bulfinch, Thomas: A Mitologia, a Era das Fábulas ou Histórias de Deuses e Heróis, 1855
  • Greek Mythology.com Greek Mythology, acessado em janeiro de 2026.
  • Greek Mythology.com Eros and Psyche, acessado em janeiro de 2026.

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Nossa Frágil Materialidade

Para que um objeto possa ser detectado ele deve interagir com outros objetos que podemos perceber.
Um objeto que interage fracamente com outros objetos é difícil de ser detectado.
Não se pode sequer afirmar que existam aqueles objetos que não interagem de forma nenhuma.
–Física
Saul e a Bruxa de Endor, Benjamin West (1738–1820). Victoria and Albert Museum.

Hipatia Lagrange de Spinos, Higgs para os amigos, é uma mulher jovem, igual a quase todos os outros jovens, não fosse por sua coragem e honestidade de pensamento. Por honestidade me refiro à pouca disposição em aceitar coisas apenas porque são admitidas pelo senso comum. Coragem ela mostrou quando, desafiando conselhos e sugestões, decidiu passar uns dias sozinha em uma cabana de madeira antiga instalada no alto de um monte e no meio de uma floresta densa e pouco visitada. Foi a atitude exatamente contrária à covardia dos amigos que se recusaram a acompanhá-la, temendo as histórias apavorantes aceitas como verdadeiras sobre o local.

Ela dirigiu até a borda da mata e caminhou o resto do percurso atravessando uma vegetação exuberante, por vezes de difícil passagem. A umidade se adensou com o frio que aumentava na medida em que ela subia o monte. A floresta estava, como sempre, muito viva. Animais cruzaram seu trajeto e ela os fotografou, sempre que conseguiu. Em suas paradas aproveitava para colher cogumelos que sabia serem deliciosos. Ao mesmo tempo, se lamentou por não poder ver a serra e despenhadeiros que a envolviam, impedida pela neblina. O relevo exigia passos lentos e cuidadosos enquanto ela procurava a direção correta até seu destino.

Ela chegou ao final da tarde. A pouca luz natural ainda permitiu que verificasse o estado da cabana que estava impecavelmente bem cuidada, com a exceção das portas e janelas empenadas com a umidade. Nenhuma delas fechava por completo. Higgs colocou sua mochila sobre uma mesa e a empurrou contra a porta de entrada para impedir que ela abrisse com o vento. Como reforço ela tirou da parede uma ferramenta pesada de madeira, com a forma aproximada de uma raquete, e a depositou sobre a mesa. Depois se sentou na cama no lado oposto do quarto. O cheiro de madeira antiga e úmida, junto com o cansaço e a escuridão só quebrada por uma pequena lamparina, venceram seu bom ânimo e ela adormeceu profundamente.

Ela foi acordada de madrugada com as janelas que batiam incessantes sob o vento gelado. Ainda deitada viu que o céu estava escuro, peneirado por estrelas de brilho nítido, pois a neblina se dissipara. Então percebeu que o ar inalado, gelado e com cheiro metálico, era expirado como vapor que se acumulava em frente a seus olhos. Ela julgou ver figuras difusas na névoa e, aos poucos, teve a certeza de que algo estava se formando bem próximo a seu rosto. Primeiro uma forma oval cinza azulada que se estendeu em um tubo longo em rodopio, mostrando a forma de uma pessoa maltrapilha. Higgs se afastou para poder focalizar a imagem que se formava. Parecia ser uma mulher velha com vestido longo e surrado e cabelos desgrenhados. Ela sentiu medo, mas também curiosidade quando percebeu que a figura era pouco sólida e translúcida. A velha abriu uma boca enorme parecendo gritar algo, mas sem produzir som algum. Ela oscilava de um lado para outro, passando próximo de Higgs em atitude agressiva. A cada investida a figura se firmava em solidez e perdia transparência.

Higgs pressentiu perigo mesmo sem compreender como poderia ser machucada. Então gritou: “Não estou te ouvindo!”. A bruxa parou de oscilar por um tempo e fechou os olhos em estado de concentração. Sua forma se tornou mais definida no ar e ela gritou de novo algo que, agora, foi possível ouvir como som abafado vindo de longe. Nas novas investidas a passagem do espectro começou a causar desconforto quando colidia de raspão. “Você é um gás, um sonho, uma ilusão”, gritou Higgs mais uma vez. A velha pareceu se irritar, parando novamente para se concentrar e ganhar solidez. A jovem a provocou repetidamente enquanto os gritos do espectro se tornavam altos e bem definidos, embora usasse uma língua incompreensível.

Higgs caminhou devagar até a parte mais distante do aposento, se esquivando dos encontros, até ficar em pé ao lado da mesa que apoiava a porta de entrada. A velha enfurecida também se afastou, ganhou velocidade e se arremessou em direção à humana viva que olhava para ela, desafiadora. Os gritos agora eram aterrorizantes, o espectro se tornara opaco e derrubava os objetos em que tocava ao longo da investida. Higgs aguardou pela proximidade e, no último instante, pegou a raquete de madeira e aplicou com ela um golpe violento sobre o rosto da mulher horrorosa que se aproximava. Ouviu-se um baque e os gritos cessaram. A forma se desfez em pó escuro que flutuou devagar até o chão. Higgs refez o arranjo destinado a travar a porta que, dessa vez fechou perfeitamente, e voltou a dormir.

Pela manhã ela encontrou a casa tão limpa quanto estava na tarde passada. Nenhum pó, nada fora do lugar exceto por um colar de aparência antiga caído no chão, ornado com um símbolo estranho que ela não reconheceu. Ela limpou o colar e o colocou no pescoço. Depois preparou o café e um omelete com os cogumelos colhidos na véspera, e saiu para continuar a exploração da mata.

Comentário do autor:

A personagem central desse conto era inicialmente chamada Lúcia Helena Courier, “LHC para os amigos”. A ideia era a de referenciar o Large Hadron Collider, o maior acelerador de partículas do mundo que fica em Genebra, na Suiça. No entando alguns leitores reclamaram, sob a impressão que LHC era um apelido muito sem graça e com pouco apelo para as pessoas que não acompanham a física de perto. Ponderei que isso é uma verdade… nem todos conhecem o que é um colisor de hádrons.

Troquei portanto o nome: ela agora se chama Hipatia Lagrange de Spinos, “Higgs para os amigos”. O nome continua esotérico para muitos mas vou mantê-lo assim mesmo. Com ele presto uma homenagem a:

  1. Hipatia, a grande matemática e filósofa neoplatônica que viveu no séc. 5 em Alexandria, Egito, e foi morta por um bando de fanáticos cristãos que rejeitavam seu pensamento pagão;
  2. Lagrange, um matemático italiano do séc. 18 que contribuiu para o cálculo, a teoria das probabilidades e a mecânica clássica;
  3. Spinos, como referência ao spin de algumas partículas subatômica, como o elétron. O mais importante no caso é seu apelido, Higgs, que faz refência às partículas associadas ao campo que, interagindo com outras partículas, define a sua massa. O bóson de Higgs foi descoberto em 2012 por pesquisadores do Grande Colisor de Hádrons, (LHC) 48 anos após sua predição por Peter Higgs.

Sobre as guerras do passado


“Deplorável é a guerra que, para atender ao interesse de alguns, inflige sofrimento sobre muitos que não se beneficiarão de seus resultados”.

Tullian Altoi, Anais de uma Guerra Passada

Um fio claro e reluzente cortou a atmosfera. Dois outros vieram em seguida, traçando uma espiral até o solo. O ar estava denso e frio e o céu azul escuro com partes vermelhas onde o sol ainda alcançava. Mas nenhuma condição adversa poderia ser usada como argumento para evitar o comparecimento das partes pois aquele era o último recanto do sistema não atingido pelo conflito.

Debilitados pela violência, exaustos nos corpos e mentes, as três espécies concordaram em formar uma grande Assembléia. Conselheiros deveriam debater e estabelecer os termos certos e justos para o fim das agressões. Tarefa difícil, eles reconheciam, se considerada a natureza distinta dos adversários, mas urgente após a constatação unânime de que não haveria vencedores.

Representantes dos Aleteos e Arqueos prepararam juntos um salão enorme e magnífico, com beleza que se esperava capaz de quebrantar o ânimo do oponente mais belicoso. Eram seres amantes da poesia e da beleza, forçados a se unir contra o inimigo comum. Eles entraram antes no salão, verificaram a correta disposição das coisas e ocuparam seus lugares. Os Alphas, nome por eles mesmos escolhido, entraram depois de forma ruidosa e exibindo contrariedade pela necessidade de dialogar.

Apenas três representantes se postaram na frente da multidão. Altoi, o Aleteo, pediu silêncio aos inquietos, lembrando que procuravam ali, na verdade, apenas chancelar o que já estava claro como única saída: a convivência harmoniosa. Ele fez então um relato listando as características de cada grupo, coisas de que cada um se orgulhava mas eram exatamente aquelas que os separavam e que precisariam ser superadas.

“Somos diferentes e precisamos lidar com a diferença”, ele disse, com entonação ordinária, sem tentar exibir suas conhecidas habilidades de orador. “Nós, Aleteos, evoluímos em ambiente tranquilo, não conhecemos predadores e jamais passamos por carência de insumos necessários para viver. Somos a espécie mais antiga pelo mesmo motivo, pois nossa evolução foi lenta e sem solavancos. Tratamos cada membro de nosso grupo como irmão e irmã, e fazemos isso desde que reconhecemos a origem comum de todos os indivíduos de nossa sociedade”.

“Arqueos, por outro lado, cresceram em ambiente árido em todos os estágios de sua evolução. Não são guerreiros porque seus inimigos não são sencientes. Obrigados a viver em terreno pouco estável, driblando vulcões e terremotos, eles também cresceram em fraternidade. A única beleza evidente em seu habitat é a arte que eles mesmos produzem … aliás uma bela forma de arte”!

Altoi tentava manter simples o seu discurso, sem perder na imponência que considerava necessária para manter algum controle sobre seus ouvintes. Mesmo assim percebeu a inquietação crescente que vinha do plenário. A um sinal discreto seu um grupo de jovens Aleteos entrou no salão servindo uma bebida quente, de cheiro adocicado, nas mesas previamente adornadas. A beleza dos Aleteos era óbvia mesmo para os de outra espécie. Eles sorriam, convidando os participantes a provarem de sua bebida. Altoi retomou sua fala:

“Também temos entre nós os Alphas, guerreiros extraordinários e fabulosos estrategistas que, para garantir sua subsistência tiveram que derrotar outras espécies inteligentes em seu mundo natal. Não ouvirão de nós nenhuma crítica, nem serão tratados com desapreço pelo extermínio desses inimigos, pois todos sabemos da impossibilidade de viverem todos no mesmo ambiente”.

“Mesmo assim peço aos Alphas que entendam e reconheçam que são o grupo mais belicoso nessa guerra. A Psicologia Interespécie mostra que são indivíduos menos empáticos, mais centrados na individualidade, o que está em flagrante dissonância com a cooperatividade das duas outras raças”.

“Temos mecanismos psíquicos e cognitivos diferentes. Embora as três espécies atualmente convivam com a vida aérea e não estão restritos à superfície, Aleteos e Arqueos evoluíram em ambiente com estímulo cognitivo em uma dimensão extra, inacessível aos Alphas. Em milhares de anos viajamos e percebemos o mundo como seres voadores, enquanto os Alphas estiveram presos ao chão, muitas vezes ao subsolo.” Em uma óbvia manobra diplomática ele ainda acrescentou: “embora saibamos que no presente os Alphas são excelentes pilotos…”

Parcas, o líder Alpha, sorriu procurando disfarçar a antipatia. Ele tomou um gole de sua taça, depois se levantou e falou em tom muito diferente, com a eloquência de quem impele seus pares ao combate.

“Protestando contra os termos injuriosos e insinuações de meu nobre colega conselheiro, reconheço a necessidade de capitular. Afirmo que desistimos de nosso propósito de incorporar todas as áreas produtivas do sistema”. Voltando-se para o próprio grupo: “Afinal, nossa própria simulação indica que a continuidade da guerra equivale à destruição mútua. Qual é a saída proposta?”

Temus, o líder Arqueo, falou dessa vez: “primeiro sugerimos que todas as espécies tenham seu direito inalienável à vida reconhecido. Por vida quero significar independência, conforto na busca de sustento e garantia de que não seremos explorados por qualquer outra espécie. Decidiremos livremente sobre nosso futuro, exceto em questões que envolvam outra raça”.

“Propomos que se vote pela harmonia, de bom grado ou não, defendida e guardada por uma Justiça dotada de sua própria Polícia, mantida e financiada em partes iguais pelos três planetas”.

Altoi Aleteo fez um gesto de desânimo. Ele pediu que se aproximassem seus conselheiros que o convenceram da necessidade da corporação policial. Os três líderes pediram que os delegados debatessem entre si, depois votassem.

Agitação e burburinho normal de um debate importante tomou conta do ambiente. Em poucos casos pessoas se destacaram de seus grupos para debater com membros de outra espécie. Quando se julgaram satisfeitos eles votaram. O resultado indiscutível, mostrando que a maioria absoluta escolheu buscar a paz, foi exibido em um placar colocado acima e em frente de todos. Seguiu-se uma comemoração intercalada por alguns poucos xingamentos, impropérios ditos em língua que a maioria desconhecia.

Passado o alvoroço Altoi Aleteo e Temus Arqueo subiram juntos ao púlpito pedindo silêncio. Eles se revezaram para dar uma notícia surpreendente:

“Não podemos aceitar esse resultado”.

Dessa vez a agitação e o ruído foram mais intensos. “O que está acontecendo?”, se perguntavam. Parcas Alpha exigiu explicação imediata, no que foi atendido por Altoi Aleteo:

“Vocês tomaram uma bebida feita de material eletrocondutor, o que nos permitiu manipular suas percepções e emotividade. Basicamente alteramos seu sentimento de empatia, usando aquelas antenas ali posicionadas”, disse ele apontando para estruturas côncavas presas ao teto. “Nossa intenção é a de mostrar que existe outra maneira de encarar o mundo que não remove a competição mas adiciona empatia. Esses dois fatores promovem a convivência e a troca com benefícios mútuos. Portanto convidamos a todos, Alphas em particular, a meditarem e visualizarem um mundo de cooperação, enquanto durar o efeito da nossa intervenção. O que podemos fazer juntos?”

Ainda sob efeito ativador do chá os Alphas aceitaram ficar ali parados, olhando com a atenção interna para uma visão de mundo que nunca haviam antes contemplado. “Guardem na memória tudo o que puderem perceber”, disse com a voz tranquila o lider, conhecedor de que sem essa manobra o armistício não seria duradouro.

Passado algum tempo o efeito começou a se dissipar. Os Alphas se sentiram tomados por sensação ambígua feita de raiva e vergonha por terem sido dominados psicologicamente, ainda que também de reverência pela visão inovadora a que tiveram acesso. Em suas imaginações eles viram os três grupos se expandindo pela galáxia, incorporando outras raças desenvolvidas em seu império e ajudando as menos avançadas a progredir. Alguns também viram guerras e conflito, todas de escopo local e sem a capacidade de destruir o grande fluxo civilizatório.


O que ocorreu depois disso ficou perdido no tempo e não foi incorporado na história. Pelo que observamos hoje as guerras foram interrompidas donde se conclui que O Congresso foi bem sucedido. Nenhuma das espécies foi extinta uma vez que temos circulando em nosso DNA porcentagens variáveis mas equitativas de herança de cada uma delas.

Inesperadamente nossa herança bélica foi útil em muitas situações ainda que a predominância de nossa natureza cooperativa tenha sido, de fato, responsável pela longevidade e alcance de nossa raça única e gloriosa!